vezes
aos sete rostos de deus para que Ned mudasse de idéia e o
deixasse aqui comigo. Por vezes as preces são respondidas.
Jon não sabia o que dizer.
- A culpa não foi da senhora - conseguiu falar, depois de um
silêncio incômodo. Os olhos dela o encontraram. Estavam
cheios de veneno.
- Não me faz falta a sua absolvição, bastardo.
Jon baixou os olhos. Ela embalava uma das mãos de Bran.
Ele pegou na outra e a apertou. Dedos como ossos de pássaro.
- Adeus - ele se despediu.
Já tinha chegado à porta quando ela o chamou.
- Jon - ele devia ter continuado a andar, mas ela nunca antes
o chamara pelo nome. Virou-se e a viu olhando-o no rosto,
como se o visse pela primeira vez.
- Sim? - ele respondeu,
- Deveria ter sido você - ela disse, e então voltou a virar-se
para Bran e começou a chorar, todo o corpo a estremecer com
os soluços, Jon nunca antes a vira chorar.
Foi uma longa descida até o pátio.
Lá fora, tudo era barulho e confusão. Carregavam-se
carroças, homens gritavam, eram postas armaduras e selas
em cavalos que eram tirados da cavalariça. Começara a cair
uma neve ligeira, e toda a gente estava mergulhada no
tumulto da partida.
Robb encontrava-se no meio da confusão, gritando ordens
com os melhores desses homens. Parecia ter crescido
ultimamente, como se a queda de Bran e o colapso da mãe o
tivessem de algum modo tornado mais forte. Vento Cinzento
estava a seu lado.
- Tio Benjen anda à sua procura - ele disse a Jon. - Queria ter
partido há uma hora.
- Eu sei - Jon respondeu. - Em breve - olhou em volta, para
todo o ruído e confusão. - Partir é mais difícil do que eu
pensava.
- Para mim também - disse Robb. Tinha neve nos cabelos,
que derretia com o calor do corpo. - Você o viu?
Jon fez um aceno, por não confiar na voz.
- Ele não vai morrer - disse Robb. - Eu sei.
- Vocês, os Stark, são difíceis de matar - concordou Jon. A
voz saiu sem entoação e cansada. A visita tinha levado toda
sua força.
Robb percebeu que havia algo de errado.
- A minha mãe,..
- Ela foi... muito amável - disse-lhe Jon. Robb pareceu
aliviado.
- Ótimo - sorriu. - Da próxima vez que o vir, estará todo de
negro. Jon forçou-se a devolver o sorriso.
- Sempre foi a minha cor. Daqui a quanto tempo pensa que
isso acontecerá?
- Não muito - prometeu Robb. Puxou Jon para si e lhe deu
um forte abraço. - Até a vista, Snow.
Jon devolveu o abraço.
- Até a vista, Stark. Cuide de Bran.
- Cuidarei - afastaram-se e olharam um para o outro,
embaraçados. - Tio Benjen disse para mandá-lo para os
estábulos se o visse - disse Robb por fim.
- Tenho mais uma despedida a fazer - informou Jon.
- Então não o vi - respondeu Robb. Jon o deixou ali, na neve,
rodeado de carroças, lobos e cavalos. Era uma curta
caminhada até o armeiro. Recolheu seu embrulho e dirigiu-se
pela ponte coberta até a Torre.
Arya estava no seu quarto, enchendo uma arca de pau-ferro
polido que era maior que ela. Nymeria a ajudava. Arya só
tinha de apontar, e a loba atravessava o quarto de um salto,
abocanhava algum bocado de seda e o trazia de volta. Mas
quando farejou Fantasma, sentou-se e soltou um ganido.
Arya olhou para trás, viu Jon e pôs-se em pé de um salto.
Atirou-lhe os braços magros com torça ao pescoço.
- Temia que já tivesse partido - ela disse, com um nó na
garganta. - Não me deixaram sair para dizer adeus.
- O que foi que você fez agora? - a voz de Jon soava divertida.
Arya o largou e fez uma careta.
- Nada. Estava de malas feitas e tudo - indicou com um gesto
a enorme arca, que não estava mais que um terço cheia, e as
roupas espalhadas por todo o quarto. - Septã Mordane diz que
tenho de fazer tudo outra vez. Não tinha as coisas dobradas
como deve ser, uma senhora respeitável do Sul não se limita a
atirar a roupa para dentro da arca como trapos velhos, ela me
disse.
- E foi isso o que você fez, irmãzinha?
- Bem, a roupa vai ficar toda bagunçada de qualquer modo -
disse Arya. - Quem se importa como está dobrada?
- Septã Mordane - Jon respondeu. - E também não me parece
que ela goste de ver Nymeria ajudando - a loba olhou-o em
silêncio com seus escuros olhos dourados. - Mas ainda bem.
Tenho uma coisa que quero que leve contigo, e tem de ser
muito bem embalada.
O rosto dela iluminou-se.
- Um presente?
- Pode dar-lhe esse nome. Feche a porta. Desconfiada, mas
excitada, Arya verificou o átrio.
- Nymeria, aqui. Guarda - deixou a loba do lado de fora a fim
de avisá-los se intrusos se aproximassem e fechou a porta.
Nessa altura, Jon tinha já removido os panos em que
embrulhara a coisa. Apresentou-a à irmã.
Os olhos de Arya abriram-se muito. Olhos negros, como os
dele.
- Uma espada - disse ela numa voz baixa e segredada.
A bainha era de suave couro cinzento, tão maleável como o
pecado. Jon desembainhou a lâmina devagar, para que ela
visse o profundo brilho azul do aço.
- Isto não é um brinquedo - disse-lhe. - Tenha cuidado para
não se cortar. O gume é suficientemente afiado para fazer a
barba.
- Moças não fazem a barba - disse Arya.
- Mas talvez devessem. Já viu as pernas da septã?
Ela riu.
-